
Escusado dizer, obviamente, que tudo não começou somente depois da internet e suas tecnologias, exceto pelos últimos 20 anos. Mas a disseminação da rede e o aumento de sua cobertura, obra já do nosso século XXI, abriram uma nova possibilidade para o que a pesquisa de mercado discute há muito: conseguir acesso aos entrevistados sem que precise haver um contato pessoal, vis-à-vis, com o entrevistador.
Temos um grande histórico de dificuldades para abordar nossos entrevistados. A melhor forma – e a mais segura, do ponto de vista do resultado da pesquisa – é aquela entrevista feita na residência das pessoas, o que, com o recrudescimento da violência e do medo, vem ficando cada vez mais difícil de conseguir e – por vias de consequência – cada vez mais cara e lenta. Há muito tempo, muito antes de sonharmos com a internet, as pesquisas à distância eram feitas por correio. Depois, com as grandes redes de telefonia, o negócio era fazer entrevistas por telefone. Não era tão chato quanto agora, quando basta ouvirmos “Boa noite, senhor. Eu poderia estar falando…”, que a gente tem uma compulsão de desligar na hora. Naquele tempo, o universo paralelo dos call-centers ainda não havia sido criado. Mas havia outros pepinos para resolver. Por exemplo, telefone era coisa de elite. Quem tinha um, fazia parte de uma casta superior à dos reles sem-telefone. Este limite era complicadíssimo, porque nenhuma pesquisa telefônica – no Brasil, que fique claro – era representativa, a não ser das classes A e B e olhe lá. Porém, como quase tudo tem pelo menos dois lados, era uma vantagem se queríamos falar coma ponta da pirâmide. Fora que, ainda naquele tempo, as pessoas até acreditavam que as outras eram honestas, tudo gente boa, e que não iriam ser assaltadas em pleno recôndito do lar. Pasmem, leitoras e leitores, especialmente os que moram em Belo Horizonte: era possível curar um porre saindo de um boteco na Savassi às três da manhã e indo para casa a pé, no Gutierrez! Então, dava para fazer entrevistas residenciais sem grandes problemas, de preferência à luz do dia, quando quase todo mundo estava acordado.
Mas as coisas evoluem. O que poderia ser chamado de nova tecnologia nos velhos e bons tempos não é a mesma coisa hoje. Habemus internet. Homo connexa que somos, fazer pesquisa virou mamão com açúcar. Basta criar um questionário, colocá-lo na internet – o Facebook taí pra isso – e sentar para esperar a avalanche de respostas que virá. Mas é melhor preparar uma boa cama, porque a espera vai ser longa e interminável. Tirante outras super tecnologias que grassam nos grandes centros – brasilianamente, em São Paulo, claro – aproveitando os sensacionais avanços da neurociência.
Este tema vai dar pano pra manga. Vamos falar dele em vários, mas não necessariamente consecutivos, artigos. Por hoje, atemo-nos, genericamente, à pesquisa online.
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